Livros e filmes feitos por mulheres

Este ano eu resolvi ler e ver mais coisas feitas por mulheres nas minhas horas de folga.
(Na História isso ainda é meio difícil: embora o campo seja mais igualitário do que outros, percebo que na teoria e metodologia ainda são os omi que dominam, aí não tenho como fugir deles).

Resolvi listar todas as coisas legais que vi e li nesses últimos meses:

Livros:

– The Bell Jar, da Sylvia Plath
Queria ler há tempos, mas sempre me enrolava. Acabei lendo em inglês e achei uma leitura meio pesada, tanto pelo tema (romance autobiográfico sobre doenças mentais e as instituições pelas quais Plath passou) quanto pelo fluxo de consciência da escrita. Ainda assim (ou por tudo isso) é um puta livro.

– A Arte de Pedir, da Amanda Palmer
Alguém no twitter falou que o ebook tava bem baratinho na Amazon e e que valia a pena comprar. Resolvi dar uma chance e virou um dos meus livros favoritos da vida. Agora eu recomendo ele pra todo mundo. É tipo uma biografia misturada com auto-ajuda (mas uma auto-ajuda muito boa, não fique com medo). O livro foi baseado numa palestra que ela deu no TED:

– Como eu era antes de você, da Jojo Meyes
Vi o trailer do filme no cinema e decidi que ia ler o livro antes, o que fiz em uma noite! hahaha. Ele é mega viciante e eu gostei bastante. Vi o filme e gostei também. Ele foi dirigido pela Thea Sharrock e o roteiro é da própria escritora.

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Filmes, séries e documentários:

– Thelma & Louise (1991)
Esse filme é um clássico, mas eu nunca tinha assistido. Gostei demais! O roteiro é da Kallie Khouri, que ganhou um Oscar por conta do filme (muito merecidamente).

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– Advantageous
(2015)
Dirigido pela Jennifer Phang e com roteiro dela e da Jacqueline Kim (que também atua como uma das protagonistas), é um filme de ficção científica mega interessante.

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Jogo do dinheiro (2016)
Dirigido pela Jodie Foster, o filme tem a Julia Roberts e o George Clooney no elenco, vale a pena ver só por causa disso❤ haha (mentira, o filme é bom também).
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Nos bastidores da fama (2014)
Não podia faltar um romancezinho na minha lista, adoro! Esse além da história de amor, trata também de empoderamento feminino e é bem legal. O roteiro e direção são da Gina Prince-Bythewood. A protagonista é a linda da Gugu Mbatha-Raw, do também muito bom “Belle”, de 2013, dirigido pela Amma Asante com roteiro da Misan Sagay.

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Gracie and Frankie (2015 – )
Eu já tinha adorado a primeira temporada e a segunda foi muito boa também – principalmente mais pro final. Uma das criadoras da série e que assina vários episódios é a Marta Kaufmann, que escreveu vários episódios de Friends (uma série que eu não curto muito, pra falar a verdade).
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– Jane the Virgin
(2014 – )
Esse foi o achado do ano❤ Viciei demais na série, que tem duas temporadas até agora (a primeira disponível na Netflix). Ela é uma sátira de novela mexicana, ao mesmo tempo que é uma série estilo novela mexicana. É mega engraçada e com uma pegada bem feminista. Desenvolvida pela Jenni Snyder Urman, é uma adaptação de uma novela venezuelana criada por Perla Farias.
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She’s beautiful when she’s angry (2014)
Documentário sobre a segunda onda do movimento feminista nos Estados Unidos. É bem bacana, vale a pena ver! Direção de Mary Dore.

– My beautiful, broken brain (2014)
Lotje Sodderland, uma produtora de vídeos inglesa sofre um derrame cerebral e não consegue mais ler nem escrever e também tem dificuldades para se comunicar. O documentário explora a recuperação dela. Recomendo muito! É dirigido por ela mesma e pela Sophie Robinson.

 

 

 

Arrogância x insegurança acadêmica em Dawson’s Creek

Adoro viciar em seriados e o queridinho da vez é Dawson’s creek. Eu assisti uns episódios quando era criança e passava na globo e, desde então, tinha vontade de assistir de cabo a rabo. A série tem muita coisa legal além da cena do Dawson chorando que virou um meme #fikdik

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Legenda da imagem: Dawson se mtando de chorar porque a Joey partiu seu coraçãozinho

Na temporada 5, no episódio 07, Joey (a nerdona da série com a qual eu me identifico :P) fala pro professor que se sente insegura e ele responde:

Most people, when they get to college, feel really insecure. lt seems like everybody around them knows so much more. So they race to try to catch up, pretend to know things instead of slowing down to actually learn them. Because they don’t realize that the discomfort of uncertainty is the most precious part of the experience you can learn anything. Anything. And if not well, then you’ve stopped before you’ve begun.

[A maioria se sente insegura na faculdade. Parece que todos à volta sabem muito mais. Então correm para se inteirar, fingem saber as coisas em vez de ir devagar, para aprender de verdade. Não vêem que o desconforto da incerteza é a parte mais preciosa da experiência. Se puder se sentir à vontade em não saber pode aprender qualquer coisa. Senão, você parou antes mesmo de começar.]

Todo início de semestre eu me acho muito burra em relação aos meus coleguinhas. Depois passa um tempo e eu vejo que era só pose e que ninguém sabia muito mais do que eu (às vezes sabia é menos). Vai ver é isso aí, eles só fingem saber. Só que enquanto fingem, não se abrem para aprender de verdade e aí permanecem estancados na arrogância e ignorância. O mundo acadêmico tem dessas coisas.

Sobre se lembrar do que estava fazendo em 11/09/2001

Já faz 14 anos, mas desde 2001 todo 11 de setembro as pessoas tem o costume de contar o que estavam fazendo quando ficaram sabendo do atentado ao World Trade Center em Nova Iorque.

Esses dias li um texto muito bom, disponível aqui, e compartilho com vocês esse trecho que achei muito significativo:

“Damos muito valor a essas conexões com o passado mais abrangente. Satisfeitos de que nossas lembranças nos pertencem, buscamos também ligar nosso passado pessoal à memória coletiva e à história pública. As pessoas recordam vividamente seus próprios pensamentos e ações em momentos de crise pública porque se agarram à oportunidade de conectar-se com um cosmos significativo. Grande número daqueles com idade suficiente para relembrar os assassinatos de Lincoln e Kennedy, também se recordava vividamente, muitos anos mais tarde, de sua própria situação naquele momento: onde estavam, quem lhes contou, o que estavam fazendo, como reagiram, o que fizeram em seguida. Mas essas recordações são frequentemente tão errôneas quanto vívidas. Realmente, as gritantes imprecisões enfatizam a questão: as pessoas estão tão ansiosas para fazer parte da “história” que falsamente “recordam” suas reações, ou até mesmo sua presença em acontecimentos importantes” (LOWENTHAL, 1998, p. 82-3).

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Imagem: Memorial do World Trade Center em Nova Iorque
Fonte: Arquivo próprio

No dia 11/09/2001 eu estava me preparando para ir à escola quando vi o plantão da Globo. Ou talvez não, mas é assim que eu lembro e assim que eu me sinto parte da História.

Sobre cabelos curtos e feminismo

Hoje, na padaria, a atendente me falou “como está lindo seu cabelo”. Agradeci, e ela continuou “Adoro cabelo curto. Eu tinha, igual ao seu. Todo mundo elogiava. Queria cortar de novo, mas meu noivo briga”.
Pensei numa saída: “Aparece com ele curto! Daí ele não vai mais poder brigar”. “Mas aí ele vai ficar emburrado”. Concordei e me despedi chateada com a vida. Nós, mulheres, ainda não somos donas dos nossos próprios corpos. Não podemos interromper uma gravidez não planejada, não podemos engordar, nem ter celulite ou estrias e não podemos nem decidir o tamanho dos nossos cabelos.
Há esse ideal na nossa sociedade de que cabelos compridos (e lisos, vejam bem) expressam mais ~feminilidade~. As mulheres de cabelos curtos ou são retratadas como ~machonas~ ou então são as megeras da história.

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O cabelo curto está associado de certa forma a uma agressividade e rebeldia. Que mundo patético que vivemos onde decidir o tamanho do próprio cabelo é ser transgressora (e ser transgressora nesse caso não é bom, porque das mulheres é esperado um papel submisso).
Só que vejam bem, em determinada idade da vida isso vai se inverter. Mulheres mais velhas de cabelos compridos são desleixadas. Imagina, então, se não pintar!
Você, homem, pode estar lendo isso e pensando “ué, mas é só não pintar”, ou “é só cortar”, “é só não alisar”. Infelizmente não é tão fácil assim. O machismo que impera na nossa sociedade faz com que haja uma pressão muito grande sobre nós. Quem decide fugir dessas regras sociais tem que aguentar muita coisa.
Embora seja ótimo quando uma mulher consegue se desprender dessas amarras e se libertar, o ideal é que esse não seja um processo individual. É preciso que a gente mude enquanto sociedade, pra que daí sim cada uma seja livre de verdade (até onde isso é possível) para decidir o que quiser sobre seus cabelos, seus corpos, suas vidas.

Orphan Black mostra que ficção científica feminista é possível

Há pouco tempo mudei meu objeto de pesquisa. No mestrado, trabalhei com o romance “The catcher in the rye” [O apanhador no campo de centeio, no Brasil] do escritor J.D. Salinger. Àqueles que não leram ainda, recomendo fortemente!
Para o doutorado, resolvi mudar de tema. Meu amor pelo Salinger é eterno, mas achei que seria interessante explorar outras possibilidades. Aí, num momento de folga, assisti “2001: uma odisséia no espaço”. Como faço sempre depois que termino de ler/ver algo, corri pra internet pra pesquisar sobre o filme. Aí fui indo de artigo em artigo na wikipedia, até que encontrei um sobre um grupo de escritores conhecidos como “The futurians”. O troço me interessou tanto que virou meu projeto de pesquisa. Minhas leituras sobre ficção científica ainda são novas e precisam aprofundamento, mas é um pouco com base nelas que escrevo sobre meu novo vício chamado Orphan Black.
A série canadense estreou em 2013 e atualmente está na terceira temporada. Pra variar, vi tudo numa tacada só: 21 episódios em 3 dias. De forma resumida, Orphan Black trata de mulheres que descobrem ser clones. Não se sabe ao certo quantas clones há e nem detalhes da pesquisa, que foi conduzida de forma ilegal na Inglaterra na década de 1970. Não quero entrar muito na história pra não fazer spoiler, por isso vou me ater a algumas personagens da série.
A principal é Sarah Manning. Do tipo durona, lembra um pouco a personagem Lisbeth Salander, da trilogia “Millenium”. Ela encara os perigos de uma-indústria-do-mal-que-tem-ligação-com-o-exército para tentar descobrir sua história. Além disso, é mãe solteira.

Cosima é doutoranda em biologia. Na ciência a desigualdade entre homens e mulheres ainda é grande, então acho muito positivo mostrar que mulheres também podem ser cientistas (e cientistas fodas!). Cosima é bissexual, mas o legal da série é que essa é apenas uma das características dela.

Alison Hendrix seria a representação mais comum das mulheres na tv: casada, mãe de família, religiosa. É ela, no entanto, que ensina Sarah a atirar e que consegue armas no mercado ilegal, dentre outras coisas.

Há ainda diversas outras personagens como Siobhan Sadler, a mãe adotiva de Sarah que age de forma dúbia; Helena, uma clone religiosa fanática com treinamento militar; Raquel, que comanda uma empresa poderosa; mais cientistas e algumas policiais. Acho muito legal da série explorar tantas personagens femininas diferentes. Cada uma com uma história e complexidade.
Nas minhas fontes de pesquisa, são sempre os homens que ocupam os papéis de destaque. Às mulheres cabem apenas papéis secundários, como secretárias, recepcionistas ou donas-de-casa. Os cientistas, astronautas, empresários, líderes são sempre homens (brancos, cis e héteros, diga-se de passagem).
Nos Estados Unidos está rolando um auê bem grande agora na ficção científica em torno da premiação conhecida como Hugo Awards. Há escritores argumentando que a ficção científica engajada não tem graça e que deveria-se retornar à “era de ouro” (que para eles foi a década de 1970).
Acontece que o retorno à essa época anterior é falso. Mesmo que um autor não perceba, está se posicionando politicamente o tempo inteiro, até mesmo com seu silêncio. O fato de não haverem negros em diversas produções, por exemplo, é um esforço para negar sua existência, assim como da população LGBT.
Orphan Black é mais um exemplo de que é possível produzir ficção científica mais inclusiva. Além disso, questiona os limites da ciência, algo que considero importante num mundo que pouco tempo atrás assistiu ao extermínio de milhões de pessoas em nome da eugênia.
Pra encerrar, lembro que aqui no Brasil também já discutimos isso. Somos tendência, hein!

A feminista que casou

Desde que me casei, em 30 de agosto do ano passado, tenho vontade de escrever sobre os motivos que me levaram a isso. Não para me justificar, mas para mostrar que casamento e feminismo não são necessariamente antagônicos, como muita gente pensa.
Vamos lá então: por que decidi me casar? Eu já morava com meu namorado/noivo há um ano e meio, então muita gente estranhou essa decisão. Bom, pra começar, esse raciocínio não faz muito sentido já que as pessoas não casam só pra morarem juntas. Isso poderia ser verdade até não muito tempo atrás, mas hoje o casamento não é mais uma imposição para morar junto nem pra transar sem ser condenado moralmente – ao menos pra pessoas não religiosas, como é meu caso e do meu marido.
Talvez por ter brincado demais com Barbie noiva na infância, ou por ter assistido muito filme de comédia romântica na adolescência, a verdade é que eu sempre quis casar. Virei feminista declarada na faculdade, mas o desejo permaneceu.
Quando entregamos o convite, um primo do meu noivo falou “ué, mas achei que vocês queriam destruir a família!” HAHAHAHAHA. É sempre bom esclarecer que o movimento feminista (ao menos aquele com o qual eu me identifico) não quer acabar com nenhuma família mas sim dar visibilidade para todas, porque família não é só aquela do comercial de margarina de pai, mãe e filhos. Na História da Família, esse modelo é chamado de Família Nuclear Burguesa e data de aproximadamente 200 anos. Além disso, o feminismo também quer que todxs tenham direito de casar e não apenas casais héteros.
Como feministas (e ateístas!), maridão e eu não conseguiríamos casar numa igreja. Como eu disse ali em cima, o casamento mudou de função, mas como as igrejas demooooooooooooooooram pra se atualizar, padres e pastores (não posso falar de outras religiões porque nunca fui em nenhuma cerimônia) continuam falando abobrinhas como a esposa deve servir o marido, o casal deve aceitar os filhos que deus enviar zzzzzzzzzZZZZZZzzzzz.
Outra invenção moderna além da Família Nuclear Burguesa é o amor romântico. Foi a partir da invenção do amor romântico que os casamentos passaram a ocorrer por causa do amor, e não mais por interesse das famílias (vem daí também a junção entre sexo e amor). Falo tudo isto porque a tendência é generalizar e achar “que sempre foi assim”. O que acontece é que a maior parte dos casamentos religiosos ainda é baseada nessa união entre as famílias e não entre as duas pessoas que estão ali porque se amam e querem ficar juntas e ponto final.
Como então casar sem ter que ouvir que você foi feita a partir de uma costela? Em alguns lugares como a Escócia, tem ganhado força uma cerimônia humanista. Esse tipo de cerimônia é laica (laica de verdade, não laica tipo Brasil) e foca na relação entre as pessoas. Aqui no Brasil, a Liga Humanista tem se esforçado pra promover esse tipo de celebração, e foi assim que nós chegamos no Álvaro, nosso celebrante que citou Sartre ao invés da Bíblia (o que fez muito mais sentido pra gente).

Mas além da cerimônia em si, há várias outras coisas importantes para um casamento, como eu vim a descobrir na organização do meu. Falei ali em cima do convite. Nós levamos HORAS (literalmente) para conseguir decidir o que escrever e como escrever. A linguagem representa (ou não, e esse silêncio é significativo sobre a sociedade) e também ajuda a construir a realidade. Optamos por usar meu apelido, já que todo mundo me chama assim, e dizer que nós estávamos convidando para nosso casamento. Nossos pais nos ajudaram financeiramente com a festa, mas a decisão de casar foi nossa, então fazia mais sentido nós convidarmos as pessoas. Outra preocupação foi incluir as mulheres no convite. Depois de queimar muitos neurônios, o resultado foi “Buca e Lucas tem o prazer de convidá-lxs para seu casamento”, que eu gostei muito.
Dizem que o vestido da noiva é uma das coisas mais importantes do “grande dia”. Como todo mundo sabe, as mulheres casavam de branco pra simbolizar sua virgindade. Eu poderia ter casado de verde, roxo ou amarelo com bolinhas azuis, mas como essa história de branco e virgem não faziam sentido pra mim, casei com um vestido off-white (cor que eu nem sabia que existia) porque sou a favor de ressignificar as coisas, como o próprio casamento.
Outro ritual comum no casamento é o pai conduzir a noiva até o altar, onde “”entrega”” ela pro noivo (esse costume vem do casamento como um negócio decidido pelos homens, como falei lá em cima). Tem casais que optam por entrar juntos, o que é bem legal, mas eu queria a emoção da surpresa do Lucas com meu vestido (culpem os filmes!). Assim, optei por entrar com meu pai como uma forma de gratidão por ele sempre ter me apoiado em todas as minhas decisões, inclusive na de casar. Ele, ali, assumia a função de pai como um grande amigo e não como alguém que me “arranjou” pra um filho de um amigo.
As práticas mudam ao longo do tempo, mas às vezes algumas coisas permanecem. Do antigo costume de “casamento arranjado” permaneceu a ideia do homem casando por obrigação. O que era verdade há um tempo atrás virou uma forma de “piada” que me irrita demais, porque pra mulher ficou o papel da louca que está obrigando o homem a casar. O casamento hoje é (ou deveria ser) uma decisão conjunta do casal. Então não faz sentido aqueles comentários de que a vida está acabando. Amigo, se não quer não casa e por favor não encha minha paciência. ‘Brigada eu.
Como o post já está longo vou encerrando por aqui. Eu quis mostrar que nada é “fixo” no ritual do casamento, como às vezes as pessoas imaginam (claro que se você casar em uma igreja podem haver eventuais restrições) mas ainda assim é possível modificar bastante coisa, desde o convite à decoração e principalmente a ideia do que é um casamento. Casamento é a união de pessoas que optaram por ficarem juntas enquanto der certo pra elas🙂

This guy, don’t be this guy. Sobre viagens, assédio e machismo

Toda semana viajo de ônibus para minha pós, 12 horinhas de pura diversão. O ônibus faz 2 paradas para lanche/troca de motorista/alongamento. A história que vou contar é sobre uma dessas paradas.
Ao descer do ônibus, já passado da meia-noite, um cara me aborda:
– Boa noite.
– Boa noite.
– Vou sentar do seu lado depois, posso?
– Não, não pode.
– Por quê não?
Eu ainda estava meio dormindo e no começo não lembrava se conhecia o sujeito ou não, já que na semana anterior quatro caras bacanas me ajudaram a chegar na USP. Demorei uns instantes pra entender que a gente não se conhecia e que na verdade ele estava me cantando. Caras, não é legal fazer isso. Sério. Não sejam iguais a esse sujeito.
Alguns vão dizer que nada de mais, que como feminista eu enxergo problema em tudo e blá blá blá. Mas só vai realmente pensar isso quem se vê no lugar do homem, do privilegiado, do mais forte nessa relação de poder e que acha que cantada é elogio.
Não é legal ser vista sempre e apenas como um corpo sexualizado (mesmo que estivesse de calça jeans e moletom). Além do mais, como eu disse ali, já passava da meia-noite e portanto estava escuro. A situação não me deixou apenas constrangida, me deixou amedrontada porque eu estava realmente sentada sozinha no ônibus. Passei o resto da viagem com medo que o sujeito viesse sentar do meu lado.
Essa história me lembrou um vídeo da Rebecca Watson em que ela relata ter sido assediada em um elevador num congresso sobre ateísmo. A parte mais trágica é que isso foi logo depois da fala dela dizendo que há machismo no movimento ateu. O vídeo gerou muita repercussão e ela foi xingada, diminuída e até ameaçada. Mas não existe machismo, né?
Sexta passada o programa “Globo Repórter” abordou pessoas que largaram tudo e foram viajar por aí. A ideia é que não é preciso dinheiro para isso, apenas determinação. Seria lindo e maravilhoso não fosse um “detalhe” não abordado pelo programa: para mulheres é muito mais difícil viajarem sozinhas. O jornal britânico “Daily Mail” incluiu o Brasil numa lista de dez países perigosos para mulheres viajantes.
Há uma empresa que vende poltronas exclusivas para mulheres. A ideia vai na mesma linha dos vagões de trens e metrôs exclusivos para mulheres. Embora eu reconheça que sejam medidas problemáticas pois segregam as mulheres ao invés de proporcionar um ambiente de respeito, ao menos trazem um pouco de segurança para as usuárias.