Cinquenta tons de cinza, impressões e feminismo

Semana passada saiu o segundo trailer de “Cinquenta tons de cinza”, filme baseado no romance de E.L. James e que deve estrear em fevereiro do ano que vem. O livro faz parte de uma trilogia que inclui ainda “Cinquenta tons mais escuros” e “Cinquenta tons de liberdade”.

Li o primeiro livro da saga de curiosidade, já que ele era o assunto do momento, e os outros dois porque eu PRECISAVA saber o que acontecia! Explico: a autora consegue prender o leitor, da mesma forma que Sidney Sheldon, J.K. Rowling, Agatha Christie etc.

Não sou crítica literária e não acredito na dicotomia pobre entre literatura boa e ruim. Há livros que são mais elaborados e outros que falam diretamente ao público, mas todos tem sua função, ainda que esta seja entretenimento. Muitas vezes um escritor mais popular como Paulo Coelho é a porta de entrada da literatura para muita gente e acaba despertando nos leitores o gosto pela leitura.

Penso que esse é um dos grandes trunfos da trilogia de James. Ela abriu caminho para que pessoas que não tinham o hábito da leitura se interessassem pela sexta arte. Além disso, mostrou que há um “nicho de mercado”, já que a maior parte dos leitores de “cinquenta tons” são mulheres. Depois de “cinquenta tons” foram lançados diversos títulos no mesmo estilo e que também tiveram vendas consideráveis.

Dito tudo isto, vou escrever sobre as minhas impressões dos livros e sua relação com o feminismo. Já aviso que o texto contem spoilers, então se você não leu  “cinquenta tons” ainda mas pretende, sugiro que volte ao blog depois.

O enredo básico é que o multi-milionário Chrystian Grey conhece a estudante de literatura Anastasia Steele e se apaixona por ela. O problema é que ele é sadomasoquista e seus relacionamentos são basicamente por contrato com mulheres que concordam com os termos da relação. Embora Anastasia não entenda nada do mundo de Chrystian ela topa assinar o contrato porque está apaixonada pelo empresário. Aí o resto você já sabe, ou pode imaginar: Grey se apaixona, fica em conflito mas no final eles-vivem-felizes-para-sempre-fim.

A trama é bem simples mesmo, porque a história surgiu como uma fanfic de Crepúsculo. Fez tanto sucesso que acabou sendo transformado em livro. Pra não ter problemas com direitos autorais, foram inventados os personagens Anastasia e Chrystian. Talvez por isso que eles sejam tão pouco embasados. Na minha opinião, faltou aprofundamento dos personagens nessa transição fanfic/livro. Uma coisa que me incomodou muito durante a leitura foi que o Chrystian Grey virou milionário super novo sozinho, apenas com seu esforço (American Dream, será?). Mas pior que a falta de explicação da riqueza de Grey é a superficialidade com que a personagem Anastasia é construída. Os livros são narrados em primeira pessoa pela Anastasia, então eu esperava mais imersão nos pensamentos/sentimentos dela. Ao invés disso, ela pensa o tempo inteiro no que Grey está pensando. O ápice disso pra mim foi quando ela descobriu (no terceiro livro) que está grávida. Ela é super nova, acabou de começar sua carreira profissional mas tudo o que ela pensa é como Chrystian vai reagir diante da notícia. Sério mesmo, James? Então embora quem conte a história seja Anastasia, eu não consegui conhecer a protagonista-narradora direito. O “herói” da trama acaba sendo o Chrystian Grey, o que é uma pena.

“Cinquenta tons” é considerado “romance erótico”. Outro trunfo da trilogia é mostrar que mulheres gostam de sexo, falam sobre sexo e leem sobre sexo também. A  forma como isso aparece no livro, no entanto, é um pouco complicada.

Como disse lá em cima, Chrystian Grey é sadomasoquista. Não entendo desse universo, mas achei problemático que o domínio do Grey não seja apenas na dimensão sexual. Ele controla Anastasia em todas as esferas da vida dela e quando ela tenta escapar desse controle acaba em problemas, o que prova o ponto totalmente equivocado de que Grey tem razão em monitorar ela.

Uma coisa que me irritou bastante são os “eufemismos” da autora. Anastasia praticamente não usa a palavra vagina. SÉRIO. É “ali”. Então mesmo pra quem quer ler só pelas cenas de sexo pode ser decepcionante.

Uma vez ouvi mulheres falando que os livros eram feministas e fiquei bastante admirada com a falta de compreensão geral sobre o que é feminsimo. É legal que a trilogia foi escrita por uma mulher e que a (supostamente) personagem principal seja uma mulher, mas isso não é suficiente para que uma obra seja feminista. De todas as definições sobre o movimento, a minha favorita é “feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”. Pode parecer óbvio que mulheres são gente, mas quando pensamos na questão de direitos, autonomia e respeito percebemos que não somos tratadas da mesma forma como os homens. Aquela ideia da música dos Engenheiros do Hawai “uns mais iguais que os outros” cabe aqui. Nesse caso é que umas gentes são mais gentes que outras gentes.

Anastasia Steele não é retratada como um ser humano próprio, com desejos, sonhos, medos e aspirações. Ela está ali simplesmente para complementar a  vida do Chrystian Grey. Nem o nome mais lhe pertence, já que Grey, usando de chantagem emocional a forçou a acrescentar seu sobrenome quando eles casaram.

É com tristeza que vejo o Chrystian Grey se transformar numa espécie de príncipe encantado da atualidade. A naturalização do machismo na nossa sociedade é bastante prejudicial e seria realmente mais proveitoso se ao invés de reforçar velhos estereótipos os livros contribuíssem na desconstrução deles. A pergunta que fica é: será que fariam tanto sucesso?

Anúncios

5 pensamentos sobre “Cinquenta tons de cinza, impressões e feminismo

  1. Muito bom, Buca! Desde que eu fiquei sabendo do trailer do filme estava para te perguntar (como referência feminista que és pra mim) qual a relação do livro com o feminismo, até já tinha comentado com a Nanda, que quando leu teu post pensou que eu tinha te perguntado sobre o assunto já… hahaha…

    Curtir

  2. transimento de pensação hahaha

    tem mais coisas ainda que daria pra escrever mas o post já tava bem longo (tipo o fato de ele comprar a empresa em que ela foi trabalhar só pra ser o chefe dela e coisas desse nível).
    agora é esperar o filme. quem sabe eles conseguem melhorar um pouco a história nesse aspecto (e irritar milhares de fãs do machistão Chrystian Grey).

    Curtir

  3. ” – vou colocar isso dentro de você – murmura – mas não aqui – seus dedos brincam entre minhas nádegas, espalhando óleo. – e sim aqui. – ele move os dedos para dentro e para fora, batendo contra a parede da minha VAGINA.”

    JAMES, Erika Leonard. Cinquenta tons mais escuros. Íntrinseca: Rio de Janeiro, p. 450:

    Curtir

    • Olá, “oi”!

      Fui procurar no kindle (ahh, a tecnologia <3) e na versão em inglês a autora usou 4 vezes a palavra "vagina". Ainda assim é pouco para três livros que somam mais de 1500 páginas, né?

      Curtir

  4. Adorei o texto! Olha eu nunca li o livro pq tenho todos os pés (uns dois) atrás com ele. Essa velha história de menina nova virgem + cara rico e experiente, aff fico desconfiada.
    O filme vem aí e não acredito que a produção tenha sensibilidade de tornar a Anastasia mais assertiva ou diminuir o machismo do livro. Agora um argumento muito comum que leio por aí é que o comportamento do Grey é normal porque faz parte da lógica do joguinho sexual deles, incluindo a vida fora do sexo, “ah mas em BDSM é assim tbm, a pessoa assume o personagem 24h, lálálá”. Sinceramente acho isso uma desculpa furada para botar cortiça de fumaça em relacionamentos abusivos, é uma lógica perigosa.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s