This guy, don’t be this guy. Sobre viagens, assédio e machismo

Toda semana viajo de ônibus para minha pós, 12 horinhas de pura diversão. O ônibus faz 2 paradas para lanche/troca de motorista/alongamento. A história que vou contar é sobre uma dessas paradas.
Ao descer do ônibus, já passado da meia-noite, um cara me aborda:
– Boa noite.
– Boa noite.
– Vou sentar do seu lado depois, posso?
– Não, não pode.
– Por quê não?
Eu ainda estava meio dormindo e no começo não lembrava se conhecia o sujeito ou não, já que na semana anterior quatro caras bacanas me ajudaram a chegar na USP. Demorei uns instantes pra entender que a gente não se conhecia e que na verdade ele estava me cantando. Caras, não é legal fazer isso. Sério. Não sejam iguais a esse sujeito.
Alguns vão dizer que nada de mais, que como feminista eu enxergo problema em tudo e blá blá blá. Mas só vai realmente pensar isso quem se vê no lugar do homem, do privilegiado, do mais forte nessa relação de poder e que acha que cantada é elogio.
Não é legal ser vista sempre e apenas como um corpo sexualizado (mesmo que estivesse de calça jeans e moletom). Além do mais, como eu disse ali, já passava da meia-noite e portanto estava escuro. A situação não me deixou apenas constrangida, me deixou amedrontada porque eu estava realmente sentada sozinha no ônibus. Passei o resto da viagem com medo que o sujeito viesse sentar do meu lado.
Essa história me lembrou um vídeo da Rebecca Watson em que ela relata ter sido assediada em um elevador num congresso sobre ateísmo. A parte mais trágica é que isso foi logo depois da fala dela dizendo que há machismo no movimento ateu. O vídeo gerou muita repercussão e ela foi xingada, diminuída e até ameaçada. Mas não existe machismo, né?
Sexta passada o programa “Globo Repórter” abordou pessoas que largaram tudo e foram viajar por aí. A ideia é que não é preciso dinheiro para isso, apenas determinação. Seria lindo e maravilhoso não fosse um “detalhe” não abordado pelo programa: para mulheres é muito mais difícil viajarem sozinhas. O jornal britânico “Daily Mail” incluiu o Brasil numa lista de dez países perigosos para mulheres viajantes.
Há uma empresa que vende poltronas exclusivas para mulheres. A ideia vai na mesma linha dos vagões de trens e metrôs exclusivos para mulheres. Embora eu reconheça que sejam medidas problemáticas pois segregam as mulheres ao invés de proporcionar um ambiente de respeito, ao menos trazem um pouco de segurança para as usuárias.

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