A feminista que casou

Desde que me casei, em 30 de agosto do ano passado, tenho vontade de escrever sobre os motivos que me levaram a isso. Não para me justificar, mas para mostrar que casamento e feminismo não são necessariamente antagônicos, como muita gente pensa.
Vamos lá então: por que decidi me casar? Eu já morava com meu namorado/noivo há um ano e meio, então muita gente estranhou essa decisão. Bom, pra começar, esse raciocínio não faz muito sentido já que as pessoas não casam só pra morarem juntas. Isso poderia ser verdade até não muito tempo atrás, mas hoje o casamento não é mais uma imposição para morar junto nem pra transar sem ser condenado moralmente – ao menos pra pessoas não religiosas, como é meu caso e do meu marido.
Talvez por ter brincado demais com Barbie noiva na infância, ou por ter assistido muito filme de comédia romântica na adolescência, a verdade é que eu sempre quis casar. Virei feminista declarada na faculdade, mas o desejo permaneceu.
Quando entregamos o convite, um primo do meu noivo falou “ué, mas achei que vocês queriam destruir a família!” HAHAHAHAHA. É sempre bom esclarecer que o movimento feminista (ao menos aquele com o qual eu me identifico) não quer acabar com nenhuma família mas sim dar visibilidade para todas, porque família não é só aquela do comercial de margarina de pai, mãe e filhos. Na História da Família, esse modelo é chamado de Família Nuclear Burguesa e data de aproximadamente 200 anos. Além disso, o feminismo também quer que todxs tenham direito de casar e não apenas casais héteros.
Como feministas (e ateístas!), maridão e eu não conseguiríamos casar numa igreja. Como eu disse ali em cima, o casamento mudou de função, mas como as igrejas demooooooooooooooooram pra se atualizar, padres e pastores (não posso falar de outras religiões porque nunca fui em nenhuma cerimônia) continuam falando abobrinhas como a esposa deve servir o marido, o casal deve aceitar os filhos que deus enviar zzzzzzzzzZZZZZZzzzzz.
Outra invenção moderna além da Família Nuclear Burguesa é o amor romântico. Foi a partir da invenção do amor romântico que os casamentos passaram a ocorrer por causa do amor, e não mais por interesse das famílias (vem daí também a junção entre sexo e amor). Falo tudo isto porque a tendência é generalizar e achar “que sempre foi assim”. O que acontece é que a maior parte dos casamentos religiosos ainda é baseada nessa união entre as famílias e não entre as duas pessoas que estão ali porque se amam e querem ficar juntas e ponto final.
Como então casar sem ter que ouvir que você foi feita a partir de uma costela? Em alguns lugares como a Escócia, tem ganhado força uma cerimônia humanista. Esse tipo de cerimônia é laica (laica de verdade, não laica tipo Brasil) e foca na relação entre as pessoas. Aqui no Brasil, a Liga Humanista tem se esforçado pra promover esse tipo de celebração, e foi assim que nós chegamos no Álvaro, nosso celebrante que citou Sartre ao invés da Bíblia (o que fez muito mais sentido pra gente).

Mas além da cerimônia em si, há várias outras coisas importantes para um casamento, como eu vim a descobrir na organização do meu. Falei ali em cima do convite. Nós levamos HORAS (literalmente) para conseguir decidir o que escrever e como escrever. A linguagem representa (ou não, e esse silêncio é significativo sobre a sociedade) e também ajuda a construir a realidade. Optamos por usar meu apelido, já que todo mundo me chama assim, e dizer que nós estávamos convidando para nosso casamento. Nossos pais nos ajudaram financeiramente com a festa, mas a decisão de casar foi nossa, então fazia mais sentido nós convidarmos as pessoas. Outra preocupação foi incluir as mulheres no convite. Depois de queimar muitos neurônios, o resultado foi “Buca e Lucas tem o prazer de convidá-lxs para seu casamento”, que eu gostei muito.
Dizem que o vestido da noiva é uma das coisas mais importantes do “grande dia”. Como todo mundo sabe, as mulheres casavam de branco pra simbolizar sua virgindade. Eu poderia ter casado de verde, roxo ou amarelo com bolinhas azuis, mas como essa história de branco e virgem não faziam sentido pra mim, casei com um vestido off-white (cor que eu nem sabia que existia) porque sou a favor de ressignificar as coisas, como o próprio casamento.
Outro ritual comum no casamento é o pai conduzir a noiva até o altar, onde “”entrega”” ela pro noivo (esse costume vem do casamento como um negócio decidido pelos homens, como falei lá em cima). Tem casais que optam por entrar juntos, o que é bem legal, mas eu queria a emoção da surpresa do Lucas com meu vestido (culpem os filmes!). Assim, optei por entrar com meu pai como uma forma de gratidão por ele sempre ter me apoiado em todas as minhas decisões, inclusive na de casar. Ele, ali, assumia a função de pai como um grande amigo e não como alguém que me “arranjou” pra um filho de um amigo.
As práticas mudam ao longo do tempo, mas às vezes algumas coisas permanecem. Do antigo costume de “casamento arranjado” permaneceu a ideia do homem casando por obrigação. O que era verdade há um tempo atrás virou uma forma de “piada” que me irrita demais, porque pra mulher ficou o papel da louca que está obrigando o homem a casar. O casamento hoje é (ou deveria ser) uma decisão conjunta do casal. Então não faz sentido aqueles comentários de que a vida está acabando. Amigo, se não quer não casa e por favor não encha minha paciência. ‘Brigada eu.
Como o post já está longo vou encerrando por aqui. Eu quis mostrar que nada é “fixo” no ritual do casamento, como às vezes as pessoas imaginam (claro que se você casar em uma igreja podem haver eventuais restrições) mas ainda assim é possível modificar bastante coisa, desde o convite à decoração e principalmente a ideia do que é um casamento. Casamento é a união de pessoas que optaram por ficarem juntas enquanto der certo pra elas 🙂

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4 pensamentos sobre “A feminista que casou

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