Orphan Black mostra que ficção científica feminista é possível

Há pouco tempo mudei meu objeto de pesquisa. No mestrado, trabalhei com o romance “The catcher in the rye” [O apanhador no campo de centeio, no Brasil] do escritor J.D. Salinger. Àqueles que não leram ainda, recomendo fortemente!
Para o doutorado, resolvi mudar de tema. Meu amor pelo Salinger é eterno, mas achei que seria interessante explorar outras possibilidades. Aí, num momento de folga, assisti “2001: uma odisséia no espaço”. Como faço sempre depois que termino de ler/ver algo, corri pra internet pra pesquisar sobre o filme. Aí fui indo de artigo em artigo na wikipedia, até que encontrei um sobre um grupo de escritores conhecidos como “The futurians”. O troço me interessou tanto que virou meu projeto de pesquisa. Minhas leituras sobre ficção científica ainda são novas e precisam aprofundamento, mas é um pouco com base nelas que escrevo sobre meu novo vício chamado Orphan Black.
A série canadense estreou em 2013 e atualmente está na terceira temporada. Pra variar, vi tudo numa tacada só: 21 episódios em 3 dias. De forma resumida, Orphan Black trata de mulheres que descobrem ser clones. Não se sabe ao certo quantas clones há e nem detalhes da pesquisa, que foi conduzida de forma ilegal na Inglaterra na década de 1970. Não quero entrar muito na história pra não fazer spoiler, por isso vou me ater a algumas personagens da série.
A principal é Sarah Manning. Do tipo durona, lembra um pouco a personagem Lisbeth Salander, da trilogia “Millenium”. Ela encara os perigos de uma-indústria-do-mal-que-tem-ligação-com-o-exército para tentar descobrir sua história. Além disso, é mãe solteira.

Cosima é doutoranda em biologia. Na ciência a desigualdade entre homens e mulheres ainda é grande, então acho muito positivo mostrar que mulheres também podem ser cientistas (e cientistas fodas!). Cosima é bissexual, mas o legal da série é que essa é apenas uma das características dela.

Alison Hendrix seria a representação mais comum das mulheres na tv: casada, mãe de família, religiosa. É ela, no entanto, que ensina Sarah a atirar e que consegue armas no mercado ilegal, dentre outras coisas.

Há ainda diversas outras personagens como Siobhan Sadler, a mãe adotiva de Sarah que age de forma dúbia; Helena, uma clone religiosa fanática com treinamento militar; Raquel, que comanda uma empresa poderosa; mais cientistas e algumas policiais. Acho muito legal da série explorar tantas personagens femininas diferentes. Cada uma com uma história e complexidade.
Nas minhas fontes de pesquisa, são sempre os homens que ocupam os papéis de destaque. Às mulheres cabem apenas papéis secundários, como secretárias, recepcionistas ou donas-de-casa. Os cientistas, astronautas, empresários, líderes são sempre homens (brancos, cis e héteros, diga-se de passagem).
Nos Estados Unidos está rolando um auê bem grande agora na ficção científica em torno da premiação conhecida como Hugo Awards. Há escritores argumentando que a ficção científica engajada não tem graça e que deveria-se retornar à “era de ouro” (que para eles foi a década de 1970).
Acontece que o retorno à essa época anterior é falso. Mesmo que um autor não perceba, está se posicionando politicamente o tempo inteiro, até mesmo com seu silêncio. O fato de não haverem negros em diversas produções, por exemplo, é um esforço para negar sua existência, assim como da população LGBT.
Orphan Black é mais um exemplo de que é possível produzir ficção científica mais inclusiva. Além disso, questiona os limites da ciência, algo que considero importante num mundo que pouco tempo atrás assistiu ao extermínio de milhões de pessoas em nome da eugênia.
Pra encerrar, lembro que aqui no Brasil também já discutimos isso. Somos tendência, hein!

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