BBB: por que tanto ódio nos corações?

Amanhã começa a 15ª edição do Big Brother Brasil, e TODO FUCKING ANO É A MESMA COISA: gente que odeia o programa e faz questão de deixar isso bem claro.

A dificuldade de respeitar o gosto do coleguinha não é coisa nova (“funk não é cultura” – afinal de contas só o que eu gosto que é!), mas parece ganhar uma proporção ainda maior em relação ao reality show da Globo.

Os principais “argumentos” dos haters de plantão é que o programa é “um lixo”, “emburrecedor”, “circo pro povo” (o pão no caso viria do Bolsa Família, o que não faz nem sentido já que a Globo não apoia exatamente programas de redistribuição de renda, né?)

Um slogan bem batido é: “desligue a TV e vá ler um livro”. Acho bacana incentivar a leitura. Eu mesma adoro, leio muitos livros por ano. E dá pra fazer as duas coisas: ler e assistir BBB. Juro, gente! Assim como também dá pra ir ler o livro ao invés de ficar no facebook falando isso.

Me intriga muito como virou moda odiar BBB. Parece que de repente todo o resto da programação da televisão brasileira é excelente e o Big Brother é a única coisa que não presta. Deixa eu te contar uma coisa, amigo que adora assistir futebol e fica falando mal de BBB no facebook: se eu estou emburrecendo por assistir, você não está exatamente aumentando suas capacidades cognitivas, né?

Se você não gosta, não assista. Simples assim. Você não precisa ficar postando nas redes sociais como odeia o programa pra se sentir mais inteligente do que aqueles que gostam. Brigada eu.

 

 

 

 

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Gilmore Girls, uma paixão de (quase) verão

Nas últimas semanas viciei em Gilmore Girls. O seriado foi ao ar nos Estados Unidos entre 2000 e 2007 e fez bastante sucesso à época. A trama gira em torno da relação da mãe, Lorelai, com sua filha Rory. Lorelai engravidou quando tinha 16 anos, mesma idade de Rory no início do seriado.

Lorelai fugiu da casa dos pais com Rory nos braços e se mudou para uma cidade pequena, onde conseguiu emprego em um hotel como camareira. Ela criou Rory sozinha ao mesmo tempo que cresceu profissionalmente, chegando a gerente do hotel (uma boa dose de american dream que é pra americano nenhum botar defeito na série).

Uma das coisas que mais chamou minha atenção na série são as personagens femininas. Além das protagonistas, há Sookie, a melhor amiga da Lorelai que é uma chef bastante talentosa e atrapalhada; Lane, a melhor amiga de Rory, roqueira de uma família coreana bastante rígida; Paris, a amiga neurótica da Rory; Emily, a mãe rica e conservadora da Lorelai; além de várias outras que aparecem com frequência, como a vizinha Babette que é um tanto louquinha mas bastante preocupada com a Rory e a Lorelai.

As personagens são bem diferentes umas das outras, mas são todas bem construídas. Cada uma tem um drama particular, e o foco é sempre nas mulheres da série, e não nos homens. Aliás, os personagens masculinos são quase todos feitos para serem não muito apreciados. O pai da Rory é um bundão, o primeiro namorado da Rory que é “perfeito” no começo se mostra um canalha lá pelo meio da série. O personagem masculino mais legal é o Luke, mas mesmo ele tem seus momentos toscos. Além de dar um ar bem humano à série (afinal ninguém é totalmente bom ou mau), o fato de os personagens masculinos não serem tão empolgantes contribui para que, ao menos em uma série, sejam as mulheres que se sobressaiam.

Não acho que o seriado seja feminista. Há vezes em que um tema caro ao feminismo poderia ser explorado (como aborto, por exemplo) mas que passa batido. Ainda assim Gimore girls levanta questionamentos importantes. A Lorelai sempre incentivou a Rory a estudar e ser o que ela quiser. No discurso de formatura da escola, Rory reconhece isso:

Quem não assistiu ainda, #ficadica de um seriado ótimo, recheado de referências literárias, trocadilhos e sacadas espirituosas, como essa da Paris:

Cinquenta tons de cinza, impressões e feminismo

Semana passada saiu o segundo trailer de “Cinquenta tons de cinza”, filme baseado no romance de E.L. James e que deve estrear em fevereiro do ano que vem. O livro faz parte de uma trilogia que inclui ainda “Cinquenta tons mais escuros” e “Cinquenta tons de liberdade”.

Li o primeiro livro da saga de curiosidade, já que ele era o assunto do momento, e os outros dois porque eu PRECISAVA saber o que acontecia! Explico: a autora consegue prender o leitor, da mesma forma que Sidney Sheldon, J.K. Rowling, Agatha Christie etc.

Não sou crítica literária e não acredito na dicotomia pobre entre literatura boa e ruim. Há livros que são mais elaborados e outros que falam diretamente ao público, mas todos tem sua função, ainda que esta seja entretenimento. Muitas vezes um escritor mais popular como Paulo Coelho é a porta de entrada da literatura para muita gente e acaba despertando nos leitores o gosto pela leitura.

Penso que esse é um dos grandes trunfos da trilogia de James. Ela abriu caminho para que pessoas que não tinham o hábito da leitura se interessassem pela sexta arte. Além disso, mostrou que há um “nicho de mercado”, já que a maior parte dos leitores de “cinquenta tons” são mulheres. Depois de “cinquenta tons” foram lançados diversos títulos no mesmo estilo e que também tiveram vendas consideráveis.

Dito tudo isto, vou escrever sobre as minhas impressões dos livros e sua relação com o feminismo. Já aviso que o texto contem spoilers, então se você não leu  “cinquenta tons” ainda mas pretende, sugiro que volte ao blog depois.

O enredo básico é que o multi-milionário Chrystian Grey conhece a estudante de literatura Anastasia Steele e se apaixona por ela. O problema é que ele é sadomasoquista e seus relacionamentos são basicamente por contrato com mulheres que concordam com os termos da relação. Embora Anastasia não entenda nada do mundo de Chrystian ela topa assinar o contrato porque está apaixonada pelo empresário. Aí o resto você já sabe, ou pode imaginar: Grey se apaixona, fica em conflito mas no final eles-vivem-felizes-para-sempre-fim.

A trama é bem simples mesmo, porque a história surgiu como uma fanfic de Crepúsculo. Fez tanto sucesso que acabou sendo transformado em livro. Pra não ter problemas com direitos autorais, foram inventados os personagens Anastasia e Chrystian. Talvez por isso que eles sejam tão pouco embasados. Na minha opinião, faltou aprofundamento dos personagens nessa transição fanfic/livro. Uma coisa que me incomodou muito durante a leitura foi que o Chrystian Grey virou milionário super novo sozinho, apenas com seu esforço (American Dream, será?). Mas pior que a falta de explicação da riqueza de Grey é a superficialidade com que a personagem Anastasia é construída. Os livros são narrados em primeira pessoa pela Anastasia, então eu esperava mais imersão nos pensamentos/sentimentos dela. Ao invés disso, ela pensa o tempo inteiro no que Grey está pensando. O ápice disso pra mim foi quando ela descobriu (no terceiro livro) que está grávida. Ela é super nova, acabou de começar sua carreira profissional mas tudo o que ela pensa é como Chrystian vai reagir diante da notícia. Sério mesmo, James? Então embora quem conte a história seja Anastasia, eu não consegui conhecer a protagonista-narradora direito. O “herói” da trama acaba sendo o Chrystian Grey, o que é uma pena.

“Cinquenta tons” é considerado “romance erótico”. Outro trunfo da trilogia é mostrar que mulheres gostam de sexo, falam sobre sexo e leem sobre sexo também. A  forma como isso aparece no livro, no entanto, é um pouco complicada.

Como disse lá em cima, Chrystian Grey é sadomasoquista. Não entendo desse universo, mas achei problemático que o domínio do Grey não seja apenas na dimensão sexual. Ele controla Anastasia em todas as esferas da vida dela e quando ela tenta escapar desse controle acaba em problemas, o que prova o ponto totalmente equivocado de que Grey tem razão em monitorar ela.

Uma coisa que me irritou bastante são os “eufemismos” da autora. Anastasia praticamente não usa a palavra vagina. SÉRIO. É “ali”. Então mesmo pra quem quer ler só pelas cenas de sexo pode ser decepcionante.

Uma vez ouvi mulheres falando que os livros eram feministas e fiquei bastante admirada com a falta de compreensão geral sobre o que é feminsimo. É legal que a trilogia foi escrita por uma mulher e que a (supostamente) personagem principal seja uma mulher, mas isso não é suficiente para que uma obra seja feminista. De todas as definições sobre o movimento, a minha favorita é “feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”. Pode parecer óbvio que mulheres são gente, mas quando pensamos na questão de direitos, autonomia e respeito percebemos que não somos tratadas da mesma forma como os homens. Aquela ideia da música dos Engenheiros do Hawai “uns mais iguais que os outros” cabe aqui. Nesse caso é que umas gentes são mais gentes que outras gentes.

Anastasia Steele não é retratada como um ser humano próprio, com desejos, sonhos, medos e aspirações. Ela está ali simplesmente para complementar a  vida do Chrystian Grey. Nem o nome mais lhe pertence, já que Grey, usando de chantagem emocional a forçou a acrescentar seu sobrenome quando eles casaram.

É com tristeza que vejo o Chrystian Grey se transformar numa espécie de príncipe encantado da atualidade. A naturalização do machismo na nossa sociedade é bastante prejudicial e seria realmente mais proveitoso se ao invés de reforçar velhos estereótipos os livros contribuíssem na desconstrução deles. A pergunta que fica é: será que fariam tanto sucesso?

Geração Brasil, uma novela feminista?

Sou noveleira assumida, e assim como milhões de brasileirxs, adoro ver uma boa trama! Tenho várias ressalvas à TV Globo e seu jornalismo que se finge isento quando na verdade defende claramente um lado, mas não posso fingir que as novelas da Globo não são boas. A emissora investe em cenários, boas edições e um time de atrizes  e atores excelentes.

Infelizmente não acompanhei Geração Brasil desde o começo, mas do ponto que peguei até agora a novela tem me surpreendido bastante. Pra começar, tem elementos de ficção científica: além de diversas tecnologias que ainda não conhecemos, o guru Brian Benson consegue “reprogramar” o cérebro das pessoas através da “filosofia do mistério”. Uma coisa legal a dizer sobre o Brian é que ele é interpretado pelo Lázaro Ramos (um puta ator!) que é negro. Então o cara mais phoda da novela senhoras e senhores é um negro. Ao mesmo tempo que a Globo passa aquele absurdo de “Sexo e as negas”, no horário das 19h está quebrando alguns antigos costumes da emissora de só escalar negrxs para atuarem como trabalhadores domésticos. Mas isso não é tudo. A mãe de Brian, Dorothy, é uma mulher trans* e seu pai um homem trans* (embora eu nunca tenha visto ele na novela, apenas menções). Infelizmente Dorothy não é interpretada por uma mulher trans* (como a personagem Sophia Burset, de Orange is the new black, interpretada pela Laverne Cox), mas sua participação é muito positiva e felizmente bem diferente daquela representação trans* que o Zorra Total faz.

Além de Dorothy, há várias personagens femininas bem fortes e interessantes. Pâmela Parker é famosa por ter interpretado em uma espécie de Star Wars. Sua filha Megan Lily é uma celebridade à lá Lindsay Lohan, que é presa várias vezes por dirigir embriagada e coisas do tipo, mas que ao longo da novela vai se “regenerando”. Pâmela casou-se com Jonas Marra quando estava grávida de Megan, e os dois se consideram pai e filha. Aliás, outra coisa bacana na novela  são as representações de família: há várias formações como sobrinho sendo criado pelos tios, famílias onde moram avós, pais, filhos e netos, dentre outras. Pena que não há nenhuma relação homoafetiva, nem personagens gays na novela, o que iria enriquecer ainda mais sua diversidade.

Ainda assim a novela tem uma pegada feminista. Claro que é leve, mas já é um avanço. Já mencionei algumas personagens, mas faltou falar da Manu, que é uma ótima programadora. Representatividade importa, e é fundalmental que as meninas possam assistir a novela e sonharem em trabalhar com tecnologia também! (um mercado infelizmente bastante machista ainda). Tem também a jornalista Verônica (interpretada por Taís Araújo) que consegue desvendar vários mistérios. Ela mora com seu filho Vicente e com a Edna, e é muito legal mostrar que existe sim amizade verdadeira entre mulheres.

Geração Brasil não emplacou muito na audiência, o que é uma pena. A novela é excelente, cheia de reviravoltas do tipo mocinho que vira vilão, que se redime e vira mocinho de novo. O legal é que isso ajuda a desconstruir aquela coisa de que o mocinho é mau o tempo inteiro e o mocinho sempre bom. O “vilão” de Geração Brasil é o cara que defende software livre e tem uma ONG pra ensinar informática para as crianças, ou seja, até ele tem seu lado bacana.

Pra encerrar, deixo aqui um vídeo excelente feito pela personagem Megan quando teve fotos suas expostas na rede:

http://gshow.globo.com/novelas/geracao-brasil/Parker-TV/noticia/2014/10/megan-lily-o-meu-corpo-me-pertence.html

Eleições: o que significa ser de esquerda ou direita?

O assunto do momento é o segundo turno das eleições para presidentx do Brasil. Minha memória é ruim e eu não peguei tantas eleições assim, mas não me lembro de uma que tenha sido tão raivosa. Principalmente no facebook, todos os dias eu vejo discussões intermináveis. Também vejo argumentos muito ruins dos dois lados.

Minha intenção é tentar entender e mostrar os dois projetos de Brasil que cada um dos candidatos tem. Como não existe fala neutra, já deixo aqui minha posição bem marcada: votarei na Dilma, mas respeito quem vai votar no Aécio. Embora tenha gente que acredite que as universidades públicas são todas marxistas que doutrinam seus alunos, eu fiz graduação e mestrado em uma e li o Marx como um pensador importante do século XIX, ao lado de outros. Os críticos da esquerda tendem a achar que nós estamos parados no tempo (embora às vezes tenha gente de esquerda que também pense dessa forma a direita). Mas o que significa dizer-se de esquerda ou direita?

O termo vem das posições ocupadas nas cadeiras da Assembléia Nacional durante a Revolução Francesa. À direita, sentavam-se os partidários ao rei e da monarquia, e à esquerda, os revolucionários. Com o tempo (e a influência francesa no mundo ocidental) o termo difundiu-se e também se alargou. Hoje, de forma bem resumida, essas posições políticas tem relação com o tipo de Estado e economia que se espera construir. A esquerda acredita em um Estado forte, interventor, que procure minimizar as desigualdades sociais através da redistribuição de renda e em serviços públicos. Já a direita defende o “Estado mínimo”, o livre mercado, a auto-regulação da economia e serviços privados.

O PT alinha-se mais à esquerda, e o PSDB à direita. Então, dependendo em quem ganhar o segundo turno, teremos dois Brasis bem diferentes. Pra quem viveu (ou estudou) os anos do FHC no poder, sabe que o jeito de governar do PSDB é “enxugando a máquina pública”: redução do funcionalismo público, privatizações, pouco investimento em serviços públicos como saúde e educação. Já o PT investiu em programas como o Bolsa Família, criou dezenas de universidades públicas e aumentou o número de vagas de servidores públicos. Então, não seja ingênuo de achar que “esquerda e direita não existem mais”, porque essa orientação vai ter um impacto direto sobre sua vida e a de milhões de brasileiros. Pense bem sobre seu voto, e se você tem dúvidas sobre seu posicionamento, esse teste (em inglês) ajuda a entender melhor o lance esquerda-direita com o plus liberal-autoritário:

http://www.politicalcompass.org/analysis2

Douglas Adams, Beatles, shows perdidos, Amy e o clube dos 27

Depois de muito tempo lendo só História, me dei férias e comecei “O salmão da dúvida”, do Douglas Adams. Na verdade trata-se de vários textos achados no computador de Adams depois de sua morte e reunidos em um livro publicado em 2002 e lançado só este ano no Brasil.

Em “As vozes dos nossos dias passados”, Adams conta da sua paixão pelos Beatles e de como perdeu várias oportunidades de vê-los tocando. Isso me lembrou a história de uma colega da faculdade que deixou de ir a um show dos Mamonas Assassinas e logo depois eles morreram em um acidente trágico. Assim como o Douglas Adams e a Shiva, eu também tenho a história dum show perdido. No meu caso, não fui assistir a Amy Winehouse em 2011 aqui em Floripa. O show era longe, o ingresso caro e a preguiça grande. Seis meses depois ela faleceu precocemente, aos 27 anos de idade.

A morte de Amy gerou muita especulação, principalmente por conta da sua idade. A teoria (da conspiração) do chamado “Clube dos 27” ganhou força e mais um nome de peso entre seus “membros”. Outros artistas que também morreram aos 27 e que geralmente são citados são Brian Jones, Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix e Kurt Cobain.

Em uma sociedade que cultua a juventude como a melhor idade da vida e a transforma em um ideal, morrer cedo contribui para uma maior mistificação desses artistas, já que a morte prematura congela a imagem da pessoa em uma eterna juventude.

Douglas Adams faleceu aos 49 anos de idade. Não era tão novo, mas sua morte também é considerada precoce por todos aqueles que admiram sua obra. Adams conseguia, tal como Salinger (embora de estilos bem diferentes) expressar em poucas palavras uma infinidade de coisas. Termino com uma citação do Guia do mochileiro das galáxias, um dos meus livros favoritos de todos os tempos:

“- O tempo é uma ilusão. A hora do almoço é uma ilusão maior ainda.
– Muito profundo – disse Arthur. – Essa você devia mandar pra Seleções. Eles tem uma página pra gente como você”.